Nós, os gaúchos

setembro 20, 2007 § 2 Comentários

Senhorita, agora escute. O comportamento humano é simbólico. Vivemos num universo de palavras. De palavras são feitos os mitos e preconceitos de acordo com os quais pautamos nossas ações, atitudes e até o nosso gosto. Mas veja bem: a palavra não é a coisa ou a pessoa que ela designa, assim como o mapa não é o território que representa. Se você queimar o mapa do Rio Grande do Sul, este pedaço do Brasil seguirá existindo, pois não é obra de um cartógrafo mancomunado com uma casa impressora, mas parte do cosmo, criação, digamos, de Deus […] e nesta altura dos acontecimentos, já um produto ou, melhor, um adiantado processo histórico. […] Somos uma fronteira. No século XVIII, tivemos de fazer nossa opção: ficar com os portugueses ou com os castelhanos. […] Em setenta e sete anos tivemos doze conflitos armados, contadas as revoluções. Vivíamos em pé de guerra. […] Esse tipo de vida é responsável pelas tendências impetuosas que ficaram no inconsciente coletivo deste povo, e explica a nossa rudeza, a nossa às vezes desconcertante franqueza, o nosso hábito de falar alto, como quem grita ordens, dando não raro aos outros a impressão de que vivemos numa permanente carga de cavalaria. A verdade, porém, é que nenhum dos heróis autênticos do Rio Grande que conheci jamais ‘proseou’, jamais se gabou de qualquer ato de bravura seu. Os meus coestaduanos que, depois da vitória da Revolução de 1930, se tocaram para o Rio, fantasiados, e amarraram seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco – esses não eram gaúchos legítimos, mas paródias de opereta. […] Afinal de contas, que é um gaúcho? Um sujeito branquíssimo e louro chamado Schultz? Aquele senhor corpulento e corado…? ou será aquele outro de apelido luso e cara indiático como o autor deste artigo? Porque o Rio Grande do Sul é talvez o mais sortido cadinho racial do Brasil. […]

VERISSIMO, Erico. Um romancista apresenta sua terra. Do texto originalmente publicado em Rio Grande do Sul: terra e povo, Ed. Globo, sem data.

um feriado para os gaúchos. pra relembrar tradições de um povo que se quer diferente sendo tão “multi”. a data busca preservar a gauchidade e cultuar manifestações consagradas pela literatura e pela iconografia.
ainda permanecemos com uma figura tradicional (o gaúcho de botas e bombacha), de hábitos rurais, para representar um povo heterogêneo, predominantemente urbano e já evoluído em termos econômicos, socioculturais, políticos, tecnológicos.
é só olhar pro teu lado. tua família e amigos. o estado inteiro. as diferenças. quem ainda usa a indumentária e quando? só na Semana Farroupilha?

a andar pela capital, neste 20 de setembro, fico a pensar o que é ser gaúcho em 2007 e qual seria a figura representativa ideal de nossa gente?
não tenho dúvidas de que o que nos unifica, em primeira instância é o sentimento de amor ao Rio Grande, a um espaço imaginário talvez. Um orgulho, ainda que a maioria não saiba ao certo pelo quê. É o que o Érico explica sobre o inconsciente coletivo, cujo movimento tradicionalista tem tido, é claro, papel relevante na manutenção.
Além disso, penso que ainda haja aspectos bem presentes no nosso dia-a-dia, que a gente cobre uns dos outros por aqui, sem nem mesmo perceber, como a valentia, a palavra dada, respeito, honra.
Mas é fato: nos sentimos parte desta identidade (sim!), acima de tudo, porque queremos nos distinguir como portadores de especificidades, mesmo que não essas ligadas à zona rural.
O chimarrão, por exemplo, é um traço que me torna “gaúcha”, apesar de eu levar uma vida completamente urbana. O churrasco também entra aí (só não no meu caso, kkkk).
Sem falar na história, no nível de escolaridade e politização, nas mulheres bonitas e nomes bem-sucedidos que nos destacam fora daqui e não nos fazem estranhos aos nortistas, aos baianos, aos cariocas, aos paulistas…

Tudo isso e muito mais, que alguns chamam de bairrismo exacerbado, regionalismo, na verdade, iluminam a vivência de um Estado inteiro e de milhões de gaúchos que vivem fora dele (em Santa Catarina, Rondônia ou Nova York).
Também alegram crianças que começam a entender um pouco desta história. Mas somente de um pedaço, porque o Rio Grande do Sul é muuuito mais que isso (tem todas as colonizações e mais todo o resto)
Ao fim e ao cabo, conhecer um pouco desses mapas é ter a certeza de que temos um espírito comum e certas raízes. Raízes que se “espraiaram”, transcenderam para a permanência e hoje fazem parte da vanguarda cultural do nosso tempo sim!
Porque para ser gaúcha, não preciso estar vestida de prenda, basta eu me sentir assim!

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§ 2 Respostas para Nós, os gaúchos

  • Dani(Ela) Aline Hinerasky disse:

    o gaúchinho fofo da foto é o afilhado dela: Pedro Henrique Silva Hinerasky.

  • […] cena sim (vi ontem aqui pertinho de casa) traduz realmente, pra mim, o que é ser gaúcho (já escrevi aqui sobre). Muito mais do que se fantasiar de “gaúcho a pé” das coxilhas. Ou de […]

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