conectar(se) dá trabalho. muito.

outubro 13, 2009 § 7 Comentários

3463289462_29bd918bac_o Nunca parei tanto pra pensar em comunicação (ou na falta de) quanto ultimamente. A minha geração, que já é filhote da rede mundial, é uma das que menos se comunica – digo, que se comunica pior – apesar de tantos espaços para isso (a gente sabe que as conversações ocorrem e os encontros existem). Comunicar, aqui, estou falando em interagir, e, ao fazer isso, ser compreendido e/ou correspondido, né.

Não é UM problema, apenas, na minha opinião. São vários.

Isso tem a ver não só com as idiossincrasias das tecnologias digitais e das redes, mas também com o nosso jeito de dizer, com a (falta de) clareza. Com as palavras que a gente escolhe, penso cá.

Quem está do outro lado nao tem como adivinhar nossa empolgação, tristeza ou desmotivação; se um simples “Sim” é só um sim mesmo. Ou o que a gente tá pensando junto com este sim (os poréns ou se é um “mais ou menos”). Se um “não” de resposta implica uma carga de desapontamento, conformismo ou whatever.
Ou se um “Pode ser”, “Tudo bem, ok, fulaninho” não está carregado de um: “Não pensa que eu aguento isso“; ou “Quero me avançar em você”.

E se você puxa assunto com alguém numa destas plataformas e a pessoa não responde? Ela pode não estar no computador, ou pode estar ocupada, né? Ou tantas coisas. Mas você acredita nisso?

Supostas piadas ou intenções também nem sempre têm sucesso, né gente.

E no quesito afeto e coisas do coração? Ixi. Fudeu. Aí é que estas coisas se agravam. Porque mesmo com as webcams, não tem como tocar, nem ouvir o tom da voz e a respiração da mesma forma que ao vivo.

Ô coisinha complicada. Justamente porque estamos falando de pessoas.

PIOR. O que eu sinto é que tudo isso vem agravando cada vez mais nossos jeitos de interagir principalmente nas nossas relações em grupo, no dia-a-dia e não só na internet. Pode ser que gente esteja conversando menos e não falando tudo que gostaria pras pessoas. Sendo mais monossilábico até.

Claro que tem isso de ser mais fácil e confortável dizer as coisas escrevendo, por e-mail, ou nestas quickmessages, “escondida” na tela de cá, do que no cara-a-cara. Mas é bem por isso que eu às vezes me sinto emburrecendo, sem iniciativa para dizer coisas tão simples, mas fundamentais para as pessoas com quem me relaciono, a qualquer hora. Em casa, num café, no trabalho, na hora do almoço.

Muita gente dizendo coisas, vidas explícitas, mas pouca clareza no eu-e-você. Ruído. Delay.
Daí que tem gente que se trumbica. No virtual e no real.
E não tô dizendo que é culpa da rede, veja bem.
Acho que a rede mundial facilita muito os acessos das pessoas e às pessoas (sou uma otimista). Facilita as conexões. Facilita as relações, sim. Mas não os laços fortes, os vínculos de fato.
Aí a gente fala coisas. Não se entende. And… straight on.
Vamos em frente, porque é mais fácil fazer novos amigos do que fortalecer as relações que já temos.

E é aqui que eu concordo com o sociólogo Zygmunt Bauman. Porque com a mesma facilidade que a gente conecta, a gente se desconecta, né. Esta é a lógica – legítima – das redes, que não obriga o engajamento e o compromisso: “momentos em que se está em contato, intercalados por períodos de movimentação A ESMO”, explica Bauman. Conexões estabelecidas e cortadas POR ESCOLHA. Aqui está a fragilidade das relações, né.

Embora neste ponto já entremos num tema nodoso, o dos relacionamentos, (que claro, também perpassam as interações), penso que isso justifica muito da ansiedade do que a gente vive e até do medo de se expor (ou não né?).

Talvez nem falte dizer. Falta fazer acontecer neste mundo.
Fora daqui.
Porque comunicação é ação, né, nerds?
Aquele abraço!

Marcado:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

§ 7 Respostas para conectar(se) dá trabalho. muito.

  • Paula disse:

    Meodeos, que post!
    Eu já me trunquei tantos nessas comunicações online que ultimamente nem sinto vontade de ficar ON.
    As pessoas mentem muito, e mentem tudo. São de um jeito X online, e de um jeito (feio) Z offline.
    Tenho achado mais saudável sair de trás da tela do PC e viver mais, falar mais ao vivo, enxergar as pessoas, seus rostos, expressões, ouvir o tom de voz.
    Já me peguei em situações REAIS torcendo pra chegar em casa e voltar pro VIRTUAL.
    Muita loucura pra minha cabeça! :)
    Tenho tentado me educar pra voltar pra vida real um pouco…o virtual é bom, sim, mas mais complicado e mais duvidoso que o real.

    Beijos!!
    PS: acho que não disse coisa com coisa, mas o q vale é a intenção!

  • Marianna disse:

    Adorei o post, tudo a ver com o que a gente vive hoje.
    Realmente muitas vezes deixamos de falar mais o que sentimos e pensamos mesmo com todas as possibilidades que a rede nos oferece. Talvez por causa dela tenhamos ficado um pouco mais preguiçosos.
    Em muitas conversas pela internet já me peguei pensando na reação da pessoa que estava recebendo a minha mensagem, estamos perdendo esse retorno que faz tanta diferença num simples bate papo. Sou muito adepta dos smilies, porque através deles tento passar um pouquinho do que está em mim naquele momento, da expressão. Embora eles não sejam suficientes, às vezes traduzem um pouco mais da reação que está implícita no “sim” e no “não” que digitamos.
    Era isso, minha humilde opinião.
    hehehehhe

  • tiagón disse:

    tu toca em MUITOS assuntos nesse post!

    eu vivo repetindo isso lá no berê [/chato], mas acho que este é um grande momento pra Comunicação (oooh) — seja para observadores, estudiosos e/ou sujeitos. as mudanças são de grande escala e isso inclui experimentação, descompassos, enganos, ajustes e reacertos. e tudo isso em ciclos muito curtos (embora se possa unificar olhando mais de longe), com ferramentas passando de utilitário a peça de museu em períodos minúsculos.

    mas o fato é que a relação entre virtual e real, ainda que ruidosa, tem separação cada vez menos válida; senão veja que, no teu post, tu compara interações online com as do “mundo real” :) coisa que seria impensável há pouco tempo atrás. (me parece que) tu faz um apelo à ação, mas também gostaria que as redes fossem mais eficientes :)

    (ou que os humanos fossem mais diretos/desinibidos offline como online, mas aí também é 1) exigir abrir mão da segurança e conforto do segundo e 2) como tudo, uma questão de ajuste para melhor uso.)

    a citação do Bauman é perfeita. que também explica o sucesso do twitter (o ‘ultralíquido’, por enquanto): informação instantânea ignorando geografia, acompanhamento individual não-compulsório e a um clique do “unfollow” ou do “block”. a mesma facilidade em gerar o elo serve para o contrário, e julgamento de efeito à parte, serve como uma luva (porque tem a velocidade necessária) (baleiadas fora) para conectar quem fica preso ao computador a maior parte do dia.

    (na tangente: hoje recebi por e-mail uma mensagem deixada pro meu cadáver no Second Life. como bem definiu um amigo, “é como receber uma ligação do século XIX”)

    (e discordo de uma coisa: acho bem mais fácil cultivar velhos amigos que arranjar novos. se os antigos já deram tanto trabalho, e nem foram embora!) (além de que eu demoro a confiar)

    pra fechar bereteio (ideias pouco concatenadas pra serem chamadas de ‘comentário’) sobre teu post: não consigo ver bom ou ruim nas redes sociais, nas novas janelas de relacionamento e nas limitações e confortos que cada um tem. só vejo inevitabilidade, o que haveria de ocorrer porque era lógico, e o que nós todos estamos fazendo com esses brinquedos novos. (e a metáfora não é tão descabida, que se não for lúdica, rede social nenhuma subsiste.) acho incrível :)

    o/

  • oct disse:

    adorei… mesmo genial!

  • Carolis disse:

    é um post curto, mas dotado de sinceridade!
    Adorei, achei de uma síntese pura e bem clara sobre nossas novas relações com o mundo.

    Menos tempo no PC e mais tempo na vida real.

    ótemo

  • fê jaques disse:

    Adorei teus retalhos. E concordo bem, com o que falaste: conversas pelo msn sempre dão problema, ou pano pra manga. Nunca dizemos o que realmente queremos e nunca ninguém entende o que realmente queríamos dizer. Isso é hiper-não-comunicação, ao meu ver.

    Voltarei sempre.

  • amei os comentários. todos. precisaria escrever outro post aqui, pra comentar tudo. quero mais, quero conectar. voltem logo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento conectar(se) dá trabalho. muito. no Retalhos.

Meta